sábado, 17 de novembro de 2012

Querida Dadá...


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29/01/2010


Quase não tenho amigos. Pessoas são muito estranhas. Questionam coisas erradas, mas não gostam de ser questionadas quando erram. Minhas criticas não são afrontas, são apenas questionamentos racionais. Não inventei ser assim. Nem sei por que sou assim.
Com  13 anos de idade, fui impedido de fazer a primeira eucaristia. Motivo: segundo o padre e o catequista responsável por minha turma, Eu não estava pronto. Mas se o padre tivesse pensado um pouco mais. Quem não estava pronto era o professor da catequese, como alguém responsável por minha formação religiosa não conseguia me responder perguntas as quais hoje tenho resposta. Minha primeira eucaristia foi com 15 anos, isso, porque meu tio era o catequista. A crisma, prefiro não comentar. Peço que me perdoe por ter algo racional a dizer a respeito de tudo [ou com suas palavras, lhe respondo]. Meus avós não me suportam, meus amigos têm medo de falar comigo. Quando falam são para ouvir conselhos, pois sabem que sempre tenho algo defensivo-ofensivo a dizer.
Tenho pela senhora o carinho que minha mãe nunca vai sentir, vindo de mim. Não quero mudar-lhe de modo algum. Percebo, que foi sua maneira de ser que me fez perceber que alguma coisa a vida valia. Que minha paixão pela leitura, pela arte e pelas catástrofes sociais tornar-se-ão a tinta com a qual pintarei minhas idéias.
Escrevo esses lamentos, por perceber que de alguma forma estou tocado pelas idéias neoliberais, que dizem: errados ou não, o mais forte sempre tem razão. Não tenho nada a oferecer ao mundo se não conhecimento. A magnânima sede de sempre entender mais, faz de mim ignorante socialmente. Ter me afastado das pessoas contribuiu para que me sinta um estranho diante de meus amigos, que hoje já não são muitos.
Sou totalmente desligado. De dias, horas, meses e nomes. Percebo que falam comigo e não escuto, mas não é por mal ou por verdades e inverdades. Olho para o nada e para o céu e para qualquer coisa e me distraio, não estou ignorando-lhe ou domesticando meu ego ou orgulho [palavra que não faz nenhum sentido nessa sentença, mas que fará sentido quando eu puder olhar para trás e perceber que vim de muito longe para estar onde estou..., É, quando orgulho far-se-á significativo]. Tento ser honesto comigo para poder ser honesto com todos à minha volta, mas isso não é virtude no mundo atual. Isso é “bundonissi”. Nunca somos queridos quando não falamos para as pessoas o que elas querem ouvir. É outra coisa que me mata.
Em conversa estúpida, com amigo mais estúpido ainda. Ele me dizia sobre um seu parente, menor de idade que estava tendo relações homossexuais. E como ele o abordara pelo ato. E, como esse seu parente ficou constrangido e incausticado com sua intervenção. E estupidamente ele me disse: “o que tu acha disso, M...?”. Bom, perdi o amigo. Motivo. Ele é usuário de drogas. E com o seguinte questionamento mudamos de assunto. Como você sentir-se-ia, claro a colocação verbal agora proposta não foi a mesma utilizada na ocasião, se lhe fizesse criticas duras, agora, relacionadas ao seu vício? Na ocasião coloquei-lhe as criticas, como se estivesse apenas exemplificando, mas também ele como bom compreendedor percebeu meu oportunismo.
Sei ser sabedor das coisas que não sei. Ter sempre argumentos é meu maior crime. Pessoas não querem aprofundar-se em assuntos de respostas prontas. Elas pensam: “que droga eu decorei essa resposta, pra poder ter assunto e chega esse “fudido” com um baú de análises criticas. Que filho-da-puta mais chato”. Saber algo, na sociedade de pessoas ociosas de conhecimento é o caminho para o insucesso. Eu tento policiarme para rir de conversas incoerentes e não dar uma de sabidinho. Não que eu seja um poço de conhecimento, mas sei de coisas e me interesso por coisas que pessoas normalmente ignoram. Mas tem momentos que esqueço e acabo tornando-me indiferente socialmente. Fazendo com que as pessoas me ignorem ou falem comigo rapidamente, quase correndo. Um “oi!” que significa tchau. Para permanecer com amigos, tenho de manter silêncio.
Há poucos instantes fui buscar o C... na escola, encontrei o amigo supra citado, ele me deu um sorriso de “oi!” e apertou minha mão como amigos apertam. Não sei o que ele pensa, mas sei que quando encontrar com o mesmo em uma farra poderei sentir tranqüilidade. Com relação a minha presença.
Perceba, agora, que em meus relatos também tenho meu raciocínio como meu maior defeito. E que esses fatos são minhas “formidáveis quimeras”, sinto-me como “Prometeu acorrentado, que todas as manhãs é devorado por abutres. Com os Deuses não permitindo a ele, o beneficio da morte. Tendo todas as noites seu corpo reconstituído”. Sempre faço voltas pelos mesmos erros.
Li, a muito tempo atrás um texto que descrevia o conceito de verdade, e percebo que a relação existente entre verdade, certo e errado são bem próximas. Tenha a verdade como ação conjunta e não-individual. Como gostamos de defender nossos pontos de vista [verdades], não nos preocupamos com o grupo. Se o conjunto defende uma mesma idéia, essa passa a ser “a verdade”. E, é certo se todos estão de acordo, por mais que seja um erro. O errado surge quando alguém tenta frustrar a idéia coletiva. Dentro desse ponto de vista admito o erro, e compreendo sua revolta. Policiar-me-ei com mais freqüência.
Sinto-me desconcertado por não dar atenção às verdades que me cabem. E minha total falta de educação no que confirma minha posição político-historico-existêncial.
Escrevo-lhe esta carta como recurso a dialogicidade, por mais que haja convivência sinto não poder expor minhas idéias e sentimentos com relação a minhas faltas. Gritos e palavrões apenas dificultam a compreensão de como são os fatos. Nossa proximidade dá espaço para distância, sinto uma incapacidade para traduzir a verdade, quando palavras são ditas e exemplos não existem. Entende como a carta é um recurso lógico, e, mandá-la pelo correio demonstra a importância que existe em sistematizar um diálogo. Compreender uma pessoa é melhor que simplesmente achar-se em posição de verdade.
Esse nosso pequeno, porem muito importante, conflito inspirou-me a escrever um livro de crônicas. Já escolhi até o título; chamar-se-á “Crônicas de um mal educado”. Talvez nunca o escreva e fique no plano das idéias....

Espero noticias suas.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

FELICIDADE


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Tenho na garganta uma angustia que me sufoca. Tenho uma raiva que me amedronta. Uma ânsia que não consigo mais conter. Minha mente pega fogo, tudo me causa desespero, tudo parece tentar por fim a minha vida. Estou sufocando de desesperança. Não consigo gritar minha dor. Me matem. Socorro. Não sei mais por qual motivo me mantenho vivo. Minhas ideias estão confusas. Elas me causam dor. Toda essa frescura porque está próximo do Natal e não recebi meu pagamento.
Assinei no inicio deste ano um contrato de trabalho de um ano, contrato pouco produtivo, mas que continha uma clausula que me garantia um décimo terceiro salário. Um ano tem trezentos e sessenta e cinco dias, já vivi dez mil quinhentos e oitenta e cinco sem contar os anos bissextos. Muitos desses dias foram bem vividos sem as preocupações da vida mecânica, nem os absurdos dos homens de bem.
Alguém, por favor, acha a vida injusta, acha ou já achou desnecessária a existência da realidade consciente.
Faltam três dias para o Natal, já fui treze vezes ao banco ver se meu pagamento havia caído na conta. Estou com fome. Minha família tem fome. Os mendigos que tateiam o ar, mirando minha direção, eles tem fome.
Minha casa está distante, caminhar até lá me causaria fadiga. Arregaço meu corpo em um papelão, em uma das belas praças de minha linda Belém, praça construída com a arrecadação de impostos anteriores ao meu nascimento, praça reformada com o dinheiro dos meus impostos. Mandarei uma carta para o próximo Prefeito com ideias para melhorar minha chegada e minha saída deste tão propicio espaço de Lazer.
Meu relógio biológico me desperta, senti a presença da fome no meu corpo, ela perguntava-me: - Ei! E ai? Sinto minha barba ouriçada no rosto, uma mistura de baba e grama seca. Quem me vê levantar não acreditaria se eu contasse, mas sou professor de uma instituição de Assistência social do Município. As pessoas são julgadas pela aparência não pela consciência.
Na fila do Banco as pessoas se afastam, alguns deitam-se sobre o caixa eletrônico, digitam suas senhas encarando-me por baixo das axilas, o guarda atravessa a porta, bem foi isso que pareceu quando o percebi alguns centímetros de mim, a moça que auxilia os clientes perguntou-me se precisava de ajuda, será esse o novo eufemismo para: -Ei, moço! Você quer o que aqui? Uma senhora derrubou um punhado de envelopes de deposito que juntava cuidadosamente. Tentei ajudar e recolhi os que caíram perto de mim, ela olhou-me de modo desesperado, o segurança do banco deu dois passos em minha direção, o silêncio tomou conta do local, as três pessoas a minha frente disseram em coro: -Ei, moço! Desocupou aquele, vá logo. Por trás de mim o segurança aponta com o cassetete dizendo: -Ei! Aquele ali tá livre. Com um sorriso no rosto percebi que as pessoas só estavam preocupadas comigo e queriam que me sentisse confortável comigo mesmo. Afinal é quase véspera de Natal.
A felicidade que me acompanhava foi guiada até o caixa eletrônico, percebi que na fila do Banco eu era uma prioridade maior que o senhor de idade e a moça sem perna atrás de mim.
Como não poderia deixar de ser, minha felicidade tornou-se completa quando vi que meu dinheiro já estava na conta, com todos os seus impostos já descontados. Eu agradeço muito ao governo por me poupar o trabalho de vir ao banco para pagar tantos impostos, esse gesto acaba com o desmatamento de tantas árvores, diminuindo a produção de papel e o acumulo do mesmo. Diminuindo desta forma a produção de lixo em nosso país.
Minha cidade é tão pequena que posso andar os sete quilômetros e alguns metros para casa em linha reta. Levando assim vinte seis minutos até meu lar. Faço exercício físico de graça sem a necessidade de academias, treinador e qualquer outro tipo de desnecessidade da era moderna.
Esse hábito iniciou-se nas minhas idas para o trabalho, quando percebi a pequenez da cidade decidi caminhar até lá. O que me garantiu a economia de quase um mil e oitocentos reais por ano de transporte desnecessário. Sem contar a economia com vestuário, que graças aos exercícios físicos ficou menor, permitindo-me comprar roupas baratas na seção infantil. Ainda podendo educar meus filhos, ensinando-os a repartir. Só o mais velho que é rebelde, ele quer porque quer cuecas só para ele. Espero que essa faze adolescente passe logo, os irmãos precisarão de roupas em breve.
Já em casa e com um número aquem no vestuário, abri um sorriso, pois agora posso ir trabalhar com uma camisa legal do meu filho mais novo. Na separação do dinheiro para pagar as contas, entendo para que serve a Matemática no ensino regular. Mesmo que tenha só o nível fundamental, o governo lhe fornece meios para manter-se quite com suas obrigações financeiras, exercitando assim sua cidadania depois de ter sido preparado para o trabalho.
Deixe-me sistematizar meu exercício cidadão, recebo seiscentos e dezenove reais e sessenta e três centavos mais o que sobrou do décimo terceiro no caso os cento e noventa e três reais e quarenta centavos que somam exatos oitocentos e treze reais e três centavos. Menos trezentos e setenta do aluguel do quartinho onde moro com a família; menos dez reais da conta de água; menos cento e sessenta e quatro reais e noventa e seis centavos de luz; menos mais ou menos oitenta reais de taxa de segurança pago aos rapazes elegantes que tomam conta de minhas travessias a ponte para comprar pão; menos cento e sete reais que tenho de pagar muito gratamente ao governo por ter me dado emprego. Santificado seja o ISS.
Minha racionalidade rendeu a minha família uma saúde invejável em qualquer instituição carcerária do meu país, são separados cem reais para as despesas do mês que nos rende uma alimentação saudável e muito nutritiva. Substituímos a carne vermelha por soja, as vezes nos damos ao luxo com salsichas, substituímos também a carne branca, agora comemos soja guisada com batatas, soja a escabeche, para não dizerem que não comemos carne branca de jeito nenhum, semana passada cozinhamos um ovo e repartimos a clara para toda a família, demos a gema para o cachorro porque se ele tiver problemas de colesterol não teremos despesas com tratamento médico.
Agora com tudo pago, com nosso mês garantido o que sobrou usarei para fazer dengos para a família. Para minha esposa comprarei uma belíssima piranha de cabelo e para as crianças as fartarei de tanto chupar menta.
E isso tudo é agradecido quando os vejo lutando para dobrar e guardar minhas roupas; e minha esposa arrumando minha carteira para ver se não estou indo para a rua sem documentos. Ela preocupa-se demais comigo. Minha família me ama e eu a eles.
Amanhã é Natal, a ceia vai ser farta. Minha esposa fez um curso gratuito de Culinária Alternativa. O prato da noite vai ser Camusquin de Soja com Salsicha. Agora que ela está preparando entendi o porquê de comprar dois miojos no lugar de um. De sobremesa ela vai fazer Doce de Casca de Banana “Nova”. Para beber teremos suco de semente de Maracujá “Novo”. E depois se não nos der cara branca de tanta comida, talvez tentemos fazer outro filho para participar de nossa crescente família feliz, e dar utilidade as roupas que infelizmente não nos cabem mais.
Boa Noite e Feliz Natal.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Diário de Miguew Kagado 17/04/2012




A natureza é destruída em escala industrial. O planeta convive com uma nova forma de subexistência, a existência artificial. até então, os supermercados vendem sucos de frutas em "cascas" plásticas metalizadas, comprados e levados para o lar em sacolas, também, plásticas que vão para o lixo; o lixo para rua e com , suposta, sorte é recolhido para o aterro.
Contribuir com a destruição do planeta é o motivo de viver de todo bom cidadão, pagador de impostos, educado para servir. A escola te diz: queira o melhor para si. Desde que não queira dela.
O ser humano gira como "barata tonta". O mundo gira como um ovo crú na beira da mesa. Uma pequena parcela da população preocupa-se com o bem estar da natureza. O planeta é consumido por incertezas, e dentre elas está a vida.
Viver tem relação com conjuntos de inesgotaveis substâncias. A realidade é uma particularidade coletiva quando o assunto é sobreviver.
Modificar-se. Certa vez em uma caixa havia nada. Passei, então, a contemplar aquele mistério, o nada, percebi em sua existência minhas angustias mais inquietantes; minhas incertezas tortuosas. Decidi, então, por abri-la. Seu contato com uma nova realidade a fundiu com tudo que supostamente estava fora. Percebi que no momento em que a caixa se abriu, o "fora" a invadiu. Não era a caixa que estava vazia era eu que estava olhando do lugar errado. Talvez, assim seja essa batalha do homem versus natureza. O problema persiste por olharmos do lugar errado.

Diário de Miguew Kagado, 08/09/2011



Outro dia disfarçado de pessoa, vesti meus trapos mais finos e delicadamente chamei o caralho da minha mulher pra fazer meu café. Já eram três horas da manhã e eu estava com fome. Foi inegavel a satisfação e sorriso com que ela atendeu meu pedido. Satisfeito e forrado disputei corrida na rua com os cães sem dono, percebi que em um ano fazendo tal exercício poderei trabalhar todo dia revitalizado.´
No trabalho fruto de toda minha fartura compreedi a alegria de meu chefe que sonha todo dia com minha chegada meia hora mais cedo, logo, diz ele, poderei cortar o dinheiro do teu transporte para tristeza de minha mulher que não terá mais de fazer meu café pela manhã.
Vou dormir para amanhã trabalhar melhor, mais rapido e por uma ração mais justa, boa noite!

Diário de Miguew Kagado 25/11/2011















Vestido de gente comprometi minha sanidade insana quando deparei-me com folhetos cristãos espalhados pela calçado. Na minha bolsa o lanche reforçado que minha bela esposa preparou. Colocado delicadamente dentro de uma vasilha de manteiga suja da mesma, felizmente, se não iria comer pão puro. Pão esse que me lembra muito meus tempos de menino, quando roubava o padeiro, que com quinze anos descobri que não roubava nada, quem roubava era ele e minha mãe quando eu estava na escola.


Sentado felisíssimo na sargeta percebi uma procissão de irmãos pregadores que caminhavam em direção de meu pão, desgraçadamente percebi a afronta e recolhi o saboroso para bolsa sem vasilha nem nada. Os tão amaveis arlequins do senhor, devoravam-me com os olhos. Eu vi em suas frontosas faces os cantos dos olhos saltarem em minha direção, a saliva que escorria e salpicava de suas bocas oradoras. Filhos da Puta. Querem meu pão. Lenta mas habilidosamente sentei sobre a bolsa e de lá sorria um sorriso amarelo de fome.


Maldosamente despertei meus "instintinos" mais selvagens e meu corpo se transformou em um animal ruidoso e "estalataloso". Os olhos dos irmãos encheram-se de lagrimas e tristeza, cosei minha barba e dei aquele sorriso dourado que causa alegria em qualquer plano odontológico, mas pareceu não ser suficiente, então mergulhei meus dedos de estivador aposentado e comecei a arrancar os cabelos rebeldes de meu nariz. Nada parecia funcionar, mas eis que chega uma KOMB branca onde os irmãos fazem fila. Um deles me chama fico um pouco apreensivo mas caminho até ele com a certeza que terei de dizer-lhe algo que o faça desistir de meu café-almoço-janta ou seja o PÃO.


E com toda paciência do mundo lhe disse:


- Amigo! sou professor de escola pública tenho de trabalhar em três empregos para sustentar minh...


Enterrompendo-me ele me oferece uma marmita. Não gosto de tirar vantagem das pessoas, então não pude aceitar. Jamais trocarei o café-almoço-janta que minha mulher prepara para mim nem pela melhor marmita do mundo, ela faz questão de acordar antes de mim para preparar meu pão.


EU A AMO.