sexta-feira, 16 de novembro de 2012

FELICIDADE


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Tenho na garganta uma angustia que me sufoca. Tenho uma raiva que me amedronta. Uma ânsia que não consigo mais conter. Minha mente pega fogo, tudo me causa desespero, tudo parece tentar por fim a minha vida. Estou sufocando de desesperança. Não consigo gritar minha dor. Me matem. Socorro. Não sei mais por qual motivo me mantenho vivo. Minhas ideias estão confusas. Elas me causam dor. Toda essa frescura porque está próximo do Natal e não recebi meu pagamento.
Assinei no inicio deste ano um contrato de trabalho de um ano, contrato pouco produtivo, mas que continha uma clausula que me garantia um décimo terceiro salário. Um ano tem trezentos e sessenta e cinco dias, já vivi dez mil quinhentos e oitenta e cinco sem contar os anos bissextos. Muitos desses dias foram bem vividos sem as preocupações da vida mecânica, nem os absurdos dos homens de bem.
Alguém, por favor, acha a vida injusta, acha ou já achou desnecessária a existência da realidade consciente.
Faltam três dias para o Natal, já fui treze vezes ao banco ver se meu pagamento havia caído na conta. Estou com fome. Minha família tem fome. Os mendigos que tateiam o ar, mirando minha direção, eles tem fome.
Minha casa está distante, caminhar até lá me causaria fadiga. Arregaço meu corpo em um papelão, em uma das belas praças de minha linda Belém, praça construída com a arrecadação de impostos anteriores ao meu nascimento, praça reformada com o dinheiro dos meus impostos. Mandarei uma carta para o próximo Prefeito com ideias para melhorar minha chegada e minha saída deste tão propicio espaço de Lazer.
Meu relógio biológico me desperta, senti a presença da fome no meu corpo, ela perguntava-me: - Ei! E ai? Sinto minha barba ouriçada no rosto, uma mistura de baba e grama seca. Quem me vê levantar não acreditaria se eu contasse, mas sou professor de uma instituição de Assistência social do Município. As pessoas são julgadas pela aparência não pela consciência.
Na fila do Banco as pessoas se afastam, alguns deitam-se sobre o caixa eletrônico, digitam suas senhas encarando-me por baixo das axilas, o guarda atravessa a porta, bem foi isso que pareceu quando o percebi alguns centímetros de mim, a moça que auxilia os clientes perguntou-me se precisava de ajuda, será esse o novo eufemismo para: -Ei, moço! Você quer o que aqui? Uma senhora derrubou um punhado de envelopes de deposito que juntava cuidadosamente. Tentei ajudar e recolhi os que caíram perto de mim, ela olhou-me de modo desesperado, o segurança do banco deu dois passos em minha direção, o silêncio tomou conta do local, as três pessoas a minha frente disseram em coro: -Ei, moço! Desocupou aquele, vá logo. Por trás de mim o segurança aponta com o cassetete dizendo: -Ei! Aquele ali tá livre. Com um sorriso no rosto percebi que as pessoas só estavam preocupadas comigo e queriam que me sentisse confortável comigo mesmo. Afinal é quase véspera de Natal.
A felicidade que me acompanhava foi guiada até o caixa eletrônico, percebi que na fila do Banco eu era uma prioridade maior que o senhor de idade e a moça sem perna atrás de mim.
Como não poderia deixar de ser, minha felicidade tornou-se completa quando vi que meu dinheiro já estava na conta, com todos os seus impostos já descontados. Eu agradeço muito ao governo por me poupar o trabalho de vir ao banco para pagar tantos impostos, esse gesto acaba com o desmatamento de tantas árvores, diminuindo a produção de papel e o acumulo do mesmo. Diminuindo desta forma a produção de lixo em nosso país.
Minha cidade é tão pequena que posso andar os sete quilômetros e alguns metros para casa em linha reta. Levando assim vinte seis minutos até meu lar. Faço exercício físico de graça sem a necessidade de academias, treinador e qualquer outro tipo de desnecessidade da era moderna.
Esse hábito iniciou-se nas minhas idas para o trabalho, quando percebi a pequenez da cidade decidi caminhar até lá. O que me garantiu a economia de quase um mil e oitocentos reais por ano de transporte desnecessário. Sem contar a economia com vestuário, que graças aos exercícios físicos ficou menor, permitindo-me comprar roupas baratas na seção infantil. Ainda podendo educar meus filhos, ensinando-os a repartir. Só o mais velho que é rebelde, ele quer porque quer cuecas só para ele. Espero que essa faze adolescente passe logo, os irmãos precisarão de roupas em breve.
Já em casa e com um número aquem no vestuário, abri um sorriso, pois agora posso ir trabalhar com uma camisa legal do meu filho mais novo. Na separação do dinheiro para pagar as contas, entendo para que serve a Matemática no ensino regular. Mesmo que tenha só o nível fundamental, o governo lhe fornece meios para manter-se quite com suas obrigações financeiras, exercitando assim sua cidadania depois de ter sido preparado para o trabalho.
Deixe-me sistematizar meu exercício cidadão, recebo seiscentos e dezenove reais e sessenta e três centavos mais o que sobrou do décimo terceiro no caso os cento e noventa e três reais e quarenta centavos que somam exatos oitocentos e treze reais e três centavos. Menos trezentos e setenta do aluguel do quartinho onde moro com a família; menos dez reais da conta de água; menos cento e sessenta e quatro reais e noventa e seis centavos de luz; menos mais ou menos oitenta reais de taxa de segurança pago aos rapazes elegantes que tomam conta de minhas travessias a ponte para comprar pão; menos cento e sete reais que tenho de pagar muito gratamente ao governo por ter me dado emprego. Santificado seja o ISS.
Minha racionalidade rendeu a minha família uma saúde invejável em qualquer instituição carcerária do meu país, são separados cem reais para as despesas do mês que nos rende uma alimentação saudável e muito nutritiva. Substituímos a carne vermelha por soja, as vezes nos damos ao luxo com salsichas, substituímos também a carne branca, agora comemos soja guisada com batatas, soja a escabeche, para não dizerem que não comemos carne branca de jeito nenhum, semana passada cozinhamos um ovo e repartimos a clara para toda a família, demos a gema para o cachorro porque se ele tiver problemas de colesterol não teremos despesas com tratamento médico.
Agora com tudo pago, com nosso mês garantido o que sobrou usarei para fazer dengos para a família. Para minha esposa comprarei uma belíssima piranha de cabelo e para as crianças as fartarei de tanto chupar menta.
E isso tudo é agradecido quando os vejo lutando para dobrar e guardar minhas roupas; e minha esposa arrumando minha carteira para ver se não estou indo para a rua sem documentos. Ela preocupa-se demais comigo. Minha família me ama e eu a eles.
Amanhã é Natal, a ceia vai ser farta. Minha esposa fez um curso gratuito de Culinária Alternativa. O prato da noite vai ser Camusquin de Soja com Salsicha. Agora que ela está preparando entendi o porquê de comprar dois miojos no lugar de um. De sobremesa ela vai fazer Doce de Casca de Banana “Nova”. Para beber teremos suco de semente de Maracujá “Novo”. E depois se não nos der cara branca de tanta comida, talvez tentemos fazer outro filho para participar de nossa crescente família feliz, e dar utilidade as roupas que infelizmente não nos cabem mais.
Boa Noite e Feliz Natal.