segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Não falarás


Myke Zirrô


Era um dia silencioso. As pessoas apenas se olhavam. Os sons eram naturais: carros, ônibus, passos, pássaros, as folhas ao vento. Tudo parecia vida e tudo parecia morte. O tempo em silencia sofria sua metamorfose e não se podia esperar que “antes”, “agora” e “depois” ocupassem o mesmo momento. Quando tudo parecia vazio, os sons começaram a se organizar e uma iluminação se fez a cada nota descoberta, o prisma de cores arquitetara o espetáculo...
Foram dois dias trancados em casa. Lucia e suas drogas... não conseguia mover seu corpo. Moveu apenas seu braço na direção da garrafa de cachaça e arrasta-a até a boca.
No seu coração não havia coisa alguma. No seu rosto o zero comum a sua dor. Arrasta-se direção ao quarto, fedido como um banheiro, onde ferveu a água do leite. Em seu dorso o peso de um sexo que não lembra ter feito. Ali estavam as palavras que nunca Lucia pronunciara.
Lucia não sentiu, nem viu sua barriga crescer. Seu parto foi um acidente, aconteceu dentro de casa. Lavou seu feto com cachaça e cortou o cordão com uma tesoura de cortar papel, a mesma que utiliza para destrinchar sua consciência.
Tudo na vida de Lucia é brutal e o nascimento de seu filho não poderia ser diferente. Após desviscerar o filho de seu corpo venenoso, arredou-o com o pé para o canto ao lado do sofá, que vestia de certa elegância o mundo apodrecido em que Lucia existia.
Lucia arrastou-se no próprio sangue até o balde que apara água da chuva, pois sua água foi cortada há meses, essa foi à água com a qual se lavou.
O corpo estava fraco devido a hemorragia e tudo para o que conseguia olhar, aquele olhar triste de desespero era o isqueiro, com o qual poderia fumar seu remédio contra dor.
Ergue seu corpo do chão tendo as paredes sujas de sua casa como acompanhante, volta até o sofá onde havia de esquecer o que lhe aconteceu, então Lucia é desperta por um som gélido e penetrante que não ecoa pela casa, mas sim em sua cabeça. Era um choro de criança, um choro tímido de criança.
Sua força servia de intimidação para a solidão que gemia e chorava. Nunca teve a mãe que gostaria de conhecer, Lucia foi criada pela avó que sempre fez todas as suas vontades e com a morte da mesma Lucia não possuía iniciativa para fazer qualquer que fosse a coisa. Lucia passou a vida inteira sendo a sombra inútil de sua avó.
O choro não calava, não tinha voz para repreendê-lo. Assim, o choro começou a dominar seus motivos e lembranças da pouca convivência com sua mãe, que vivia entre idas e vindas com seus namorados, e que pouco a pegou no colo, que não brincava. Só lembra-se da mãe e da avó brigando. O choro não cala.
Lucia levanta-se do sofá, caminha pela casa, encosta a cabeça na porta. Sente uma ferroada de inseto na cabeça, procura entre os cabelos e encontra. É um carrapato.
O choro torna-se mais alto. Lucia junta um copo descartável do chão, retira água do balde, sua garganta está seca e seu coração dispara. A ansiedade domina sua mente. Começa a caminhar pela casa e quanto mais rápido anda, mais alto torna-se o choro.
Não suporta mais, Lucia grita no silêncio da casa – cala a boca!
Seu grito ecoa no vazio do mundo e também devora o som tortuoso em sua cabeça.
Não suporta mais o chorar, então, carrega em seu colo o feto que se calou ao sentir em seu corpo o calor materno. Lucia sente os carrapatos apressados por seu corpo. Vestida de calor materno coloca o seio flácido e seco na boca do natimorto. De seu seio escorria secreção, no entanto Lucia o embalava em seu colo, corria e brincava com seu filho pela casa e jurava por deus que seria a mãe que nunca teve. O amor que Lucia sente não permite que se lembre das drogas, seu filho torna-se o motivo de sua vida.
Lucia o segura pelas axilas e brinca com seu filho como se manipulasse um boneco de cordas.
Certa manhã foi desperta pelos carrapatos que popularam seu corpo nos dois dias de alegrias com seu filho. Lucia sente o movimento ao seu lado, era um rato que devorava deliciosamente o pequeno cadáver a quem Lucia ovacionava amor.
Lucia não existia mais. Brincava sozinha pela casa. Suas vergonhas haviam desaparecido. Arrastava o pequeno natimorto, o segura pelo dorso. Existia em sua existência e manipulava o mundo como um animal curioso.
Lucia foi desperta para o que realmente é no dia de seu parto. Lucia era o que não era e não era o que era.


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